segunda-feira, janeiro 29, 2007

Contraceptivos

Torna-se cansativo ouvir os defensores do "sim" a falar das falhas dos métodos contraceptivos. É claro que eles falham, toda a gente sabe disso. É precisamente por toda a gente saber disso que esse deixa de ser um argumento válido.

Imagine que vai a uma ervanária e pede um creme para a celulite. A proprietária da ervanária diz-lhe "tenho aqui um creme óptimo que funciona em 99% dos casos, mas tenha cuidado porque existe uma pequena percentagem de provocar alergia". Você pensa "vale a pena correr o risco" e vai para casa experimentar. Azar dos azares, provocou a alergia. Quem assume a responsabilidade pela alergia? A proprietária da ervanária, a empresa que fabricou o creme, ou você, que sabia que poderia provocar alergia mas mesmo assim correu o risco?

O mesmo se passa com os métodos contraceptivos. Se nós sabemos que há riscos e mesmo assim os usamos, teremos então de assumir as consequências desses riscos. É claro que neste caso não é uma alergia. É um filho. Mas sabe: a alergia é uma doença. Um filho é uma benção.

Se mesmo assim este argumento não lhe serve pense o seguinte:
1. Se não confia totalmente na pílula ou no DIU use também o preservativo. As probabilidades de engravidar passam a ser de 1/10000.
2. Se está a tomar antibióticos juntamente com a pílula, use o preservativo.
3. Se o preservativo rompeu tome a pílula do dia seguinte.
4. Se o seu parceiro se nega a usar preservativo ou não o pode fazer, use um diafragma ou um preservativo feminino.

Acima de tudo, você é uma pessoa consciente dos seus actos e dos riscos que corre e, portanto, deve assumir as consequências desses riscos. Não existe liberdade de escolha sem existir responsabilidade pelos nossos actos. Não temos apenas direitos. também temos deveres.

12 comentários:

KA disse...

Caro Fernando,

O grande problema deste país é que foi habituado ao facilitismo.

É muito mais fácil proporcionar uma solução fácil do que tomar responsabilidade em ir por um caminho mais difícil.

No meu blog tenho escrito vários textos e todos vão tendo comentários.. menos um, sabes qual?
O texto em que falo sobre fazermos todos (toda a sociedade) parte da solução. Pensarmos no colectivo.

Isso acontece porque infelizmente a maior parte das pessoas opta pelo facilitismo em vez de ir por um caminho consciente.

Eu sou mulher e só fiquei grávida quando quis!

fernando alves disse...

É precisamente isso!

Sabes, quando lançam para o ar aquelas estatísticas do tipo "20% das mulheres em idade fértil já fez um aborto" acho sempre que a conclusão é enganadora.

É que, enquanto há mulheres (e casais) com atitudes verdadeiramente responsáveis que nunca engravidam por acidente, há outras que engravidam "duas ou três vezes por acidente". Nas estatísticas aparecem esses valores dirtribuidos por todas.

Eu pergunto: porque será que há mulheres que nunca tiveram um "azar" durante toda a vida e há outras que já tiveram 3 ou 4?

Anónimo disse...

Qual é a diferença entre a pílula do dia seguinte e um aborto às 10 semanas? Não são os dois um aborto, mas a tempos diferentes?

fernando alves disse...

A sua dúvida é pertinente. Algumas considerações:

1. A pílula do dia seguinte pode não provocar um aborto se actuar 12 horas após a fecundação porque a fusão dos núcleos do espermatozóide e do óvulo só se dá 12 horas após a entrada do espermatozóide no óvulo.

2. A pílula do dia seguinte pode provocar uma menstruação ainda antes da fecundação.

3. A fecundação pode ocorrer até 3 após a relação sexual. Se a pílula do dia seguinte for tomada antes desses 3 dias e a fecundação não tiver ocorrido, não se pode considerar um método abortivo.

4. Uma mulher não pode ser acusada de aborto por tomar a pílula do dia seguinte mesmo que esta impeça a nidação do embrião já que a mulher a toma sem ter a certeza de estar grávida.

5. Muitos cientistas pensam (e eu também) que a vida humana começa com a nidação, ou seja aos 6 dias após a fecundação e portanto seria legítimo o uso da pílula do dia seguinte. Os cientistas colocam o início da vida na nidação porque é a partir deste momento que o embrião "põe em prática" todas as suas potencialidades de se tornar um ser humano.


Espero tê-lo esclarecido. Não hesite em colocar mais dúvidas se assim o entender.

catarina disse...

"teremos então de assumir as consequências desses riscos" Não temos apenas direitos. também temos deveres" "há mulheres com atitudes verdadeiramente responsáveis". Que crueldade e que frieza. Então há as responsáveis e as irresponsáveis?! As boazinhas e as más?! As mães de familia e as putas?!

catarina disse...

"teremos então de assumir as consequências desses riscos" Não temos apenas direitos. também temos deveres" "há mulheres com atitudes verdadeiramente responsáveis". Que crueldade e que frieza. Então há as responsáveis e as irresponsáveis?! As boazinhas e as más?! As mães de familia e as putas?!

Mente Despenteada disse...

Cara Catarina,

Há essas todas e há mais, muitas cambiantes entre a santa e a devassa (para não usar termos do nível que usou, que pessoalmente me desagradam num registo como este). Mesmo a mais activa das prostitutas pode ser responsável, sabe? Aliás, elas são até um bom exemplo, porque além da gravidez correm muito mais riscos, entre os quais o de contrair doenças venéreas, do que a maioria de nós (e não digo todos, porque há entre nós muito quem corra de ânimo leve esses e outros riscos). Mas já imaginou quantos abortos teria de fazer uma prostituta irresponsável, que não tomasse quaisquer cuidados de (chamemos-lhe assim) planeamento familiar? A responsabilidade, pelo menos a este nível, não tem a ver com o número de parceiros que cada mulher tem, mas com a forma como, até em respeito por si mesma, se previne contra gravidezes indesejadas e doenças sexualmente transmissíveis. Não acredito em azares. Nos tempos que correm, em que há pílula, preservativo masculino e feminino, DIU, diafragma... Não vou dividir as mulheres em grupos como esses que referiu, e também não vou esquecer os homens, que são parte interessada neste problema, e que devem ser tão responsáveis como elas pelo que acontece e pelo que não acontece. Mas há, de facto, as responsáveis e as irresponsáveis. Há as que se cuidam e as que se deixam andar...

catarina disse...

E as que levam a gravidez até ao fim e abandonam os filhos pertencem a que grupo? E as que não têm meios de sobrevivencia para elas próprias e têm á sua volta filhos que não conseguem apoiar? Pertecem a que grupo? E os miudos que ficam largados em orfanatos á espera de uma familia que nunca mais chega?

fernando alves disse...

Cara Catarina:
ninguém pode dar garantias que essas crianças vão ser infelizes ou vão ser postas no lixo. Há crianças em lares que são muito felizes, sabia?

Quanto à falta de apoio às grávidas, existem dezenas de associações criadas e apoiadas por movimentos do não que fazem esse apoio e que têm pouco ou nenhum apoio do estado.

catarina disse...

Qual á a criança que vive feliz sem uma familia? Qual é a criança que vive feliz sabendo que a mãe a abandonou? para isso já bastam os miúdos que estão encalhados em orfanatos e afins porque não têm ninguém. Nem para esses há familia quanto mais. Sou pelas crianças, não pelos embriões. Gerar uma vida é um momento vivido a 2, é um objectivo de vida. Não um peso que se vai carregar toda a vida.
E segundo as teorias do responsabilizar, deviamos então Não disponibilizar metadona a toxicodependentes, tratamentos a fumadores, bandas gástricas a obesos etc...se é para responsabilizar então que caiba a todos. Afinal também são vidas.

fernando alves disse...

No caso dos fumadores, dos toxicodependentes e dos obesos está em causa apenas um ser humano. No caso do aborto estão dois seres humanos.

A minha irmã trabalha num lar para rapazes. Dá-lhes apoio a português e francês. Ela diz que há de tudo: meninos tristes e meninos super alegres. E diz também que nesse lar os tratam como uma família.

Mente Despenteada disse...

A felicidade não é o fim da viagem, mas uma forma de viajar. E depende muito do carácter de cada um aquilo de que precisa para ser feliz. Muitos meninos que têm tudo, incluindo uma família, não conseguem ser felizes porque queriam ter mais e mais e mais. Há outros que com pouco - um sorriso, um afago no cabelo ou o simples gesto de nos lembrarmos de perguntar como estão - se iluminam por dentro e dão razão de ser à vida de quem os rodeia. Não sou dona da verdade, mas tenho como certo, e do contrário não me convencem, que não são os laços de sangue que fazem as famílias. São os laços de amizade, de respeito, de cumplicidade e de amor que se criam pela vida fora. Há crianças cujas mães morreram no parto. Não foram abandonadas, mas sobreviveram sem a progenitora. Há outras que têm a mãe todos os dias dentro de casa, mas a mãe não sabe sequer se os filhos gostam de leite com chocolate ou preferem chá de limão gelado. Deixemo-nos de idealismos bacocos: dá vida a uma criança quem lhe mostra que vale a pena viver. O sangue de pouco importa. Não está na mão de cada um ser feliz, mas está merecê
-lo. Quanto aos "acidentes" (custa-me aceitar essa definição para uma gravidez e uma criança) já nem me pronuncio. É um argumento demasiado fraco e mal explicado. Não merece que perca com ele o meu tempo. Acidentes na estrada podem acontecer a qualquer um. Acidentes na cama, só a quem se mete por atalhos.